IA na construção civil já é realidade, não tendência, aponta especialista

CEO da Climb Consulting aponta as aplicações concretas da inteligência artificial em obras e como transformar dados em vantagem competitiva na construção

Por Conexão Construção 30/04/2026 - 14:54 hs

A construção civil é apontada pelo McKinsey Global Institute como um dos setores com maior potencial de recuperação de produtividade via tecnologia, podendo alcançar ganhos de até 60% com a digitalização. No Brasil, esse movimento ganhou velocidade nos últimos anos, e o que antes parecia horizonte distante já opera em canteiros, escritórios de engenharia e sistemas de gestão pelo país. Quem acompanha essa transição de perto é Bernardo Etges, CEO e fundador da Climb Consulting, referência nacional em Lean Construction e Governança de Projetos com mais de 200 projetos executados em mais de 60 empresas. Para ele, a pergunta sobre quando a IA vai chegar às obras já tem resposta. "Não é incipiente, não é futuro. Ela é atual, ela é real", afirma.

Na prática, quatro frentes já concentram a maior parte das aplicações em uso hoje. A primeira é o monitoramento de equipamentos por visão computacional. Câmeras com inteligência artificial identificam em tempo real o estado operacional de escavadeiras, caminhões e demais máquinas, distinguindo, por exemplo, se um veículo está carregado, em deslocamento vazio ou parado. O resultado é um relatório diário estratificado, produzido de forma automática. "Antes, isso exigia pessoas com pranchetas. Hoje, os indicadores chegam automaticamente", descreve Etges. Segundo dados do setor, a adoção de soluções similares pode reduzir acidentes de trabalho em até 40% a 60%.

A segurança do trabalho é outro campo em que a tecnologia já opera com resultados concretos. Sistemas de reconhecimento de imagem detectam automaticamente trabalhadores sem EPIs, como capacetes, óculos e luvas, e emitem alertas em tempo real. O Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial de acidentes fatais de trabalho, e especialistas apontam que essa camada tecnológica de fiscalização contínua é especialmente relevante em obras de grande porte.

Orçamentos e compras também entram nesse mapa. Algoritmos de machine learning já conseguem sugerir composições de preço a partir de bases como SINAPI e SICRO, cruzar referências de múltiplas tabelas e identificar incoerências em cotações de fornecedores. O impacto financeiro é mensurável: registros do setor apontam que o controle orçamentário assistido por IA tem gerado uma diferença de até 20% entre o valor previsto e o realizado ao final das obras, além de ganhos na cadeia de suprimentos, com otimização logística e maior previsibilidade diante de variações de preço de insumos.

Talvez o uso de maior impacto direto na gestão seja a análise de diários de campo. Plataformas como a Constructor AI cruzam automaticamente os apontamentos do diário de obra com o cronograma, sinalizando quais atividades estão sendo comprometidas em tempo real. A Buildots equipa os capacetes dos trabalhadores com câmeras de 360 graus que registram continuamente o canteiro; a IA processa essas imagens e confronta o que foi executado com o modelo de referência, apontando discrepâncias antes que virem problema de prazo. A plataforma Doxel combina inteligência artificial com visão computacional para monitorar o progresso das obras de forma contínua, com potencial de aumento de produtividade de até 50%.

O impacto financeiro dessas aplicações pode ser significativo mesmo em processos administrativos. Um estudo de caso publicado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás demonstrou que a automação do lançamento de notas fiscais, com o uso de inteligência artificial integrada ao sistema ERP, reduziu o tempo médio de processamento de 23 minutos para 2 minutos por documento, uma redução de 91%. Para um volume de 700 notas fiscais mensais, a economia alcançou aproximadamente 245 horas de trabalho por mês, equivalente a 1,4 meses de jornada recuperados.

Na Climb Consulting, o uso de IA está incorporado à rotina de entrega dos projetos. A equipe utiliza ferramentas como NotebookLM, Gemini e ChatGPT para correlacionar apontamentos de campo com desvios de produção, verificar consistência em relatórios e acelerar análises. A consultoria também desenvolveu um bot de restrições para o planejamento Lean: ao informar que determinada atividade será iniciada, o sistema lista automaticamente as possíveis restrições a serem gerenciadas. Além disso, a Climb incorpora em seus projetos soluções de monitoramento por câmera para apontamento de equipamentos pesados e automação de diários de obra com suporte de inteligência artificial. "A gente consegue entregar muito mais qualidade. Eu consigo subir a régua", resume o CEO.

Para extrair valor real da IA, Etges aponta um pré-requisito estratégico: a organização dos dados internos. Empresas que digitalizam e estruturam seus registros de obras, orçamentos e medições antes de implementar qualquer ferramenta de inteligência artificial saem na frente, porque a IA aprende e performa na medida exata da qualidade do que a alimenta. "Dados fragmentados geram IA fragmentada", resume. É esse ponto de partida que diferencia as empresas que já colhem resultados concretos das que ainda exploram o potencial da tecnologia. A boa notícia, segundo ele, é que esse caminho está cada vez mais acessível: as ferramentas disponíveis hoje permitem começar de forma incremental, integrando IA aos fluxos já existentes sem exigir reestruturação total dos processos.

Para a governança de projetos, o especialista vê a IA principalmente como amplificadora da velocidade de análise e de simulação de cenários. Ferramentas como o Procore utilizam IA para analisar dados históricos e sugerir cronogramas otimizados, enquanto plataformas baseadas no Autodesk Construction Cloud identificam anomalias e sugerem ações corretivas em tempo real. A chave, na avaliação de Etges, é manter o engenheiro como responsável técnico e tomador de decisão final. "A IA não substitui a liderança. Ela subsidia com mais velocidade. Precisa ter um filtro humano, uma revisão. A verificação humana continua sendo indispensável."

Etges observa também um fator geracional acelerando a adoção. Profissionais com menos de 30 anos chegam às construtoras e às consultorias mais dispostos a testar novas plataformas e a propor usos que as lideranças mais experientes ainda não conhecem. "Todas as plataformas novas que recebo chegam através dos meus consultores mais jovens. Isso vai fazer a adoção acontecer com muito mais velocidade", conclui.